Quando inimigos apelavam para os costumes é tradições ou para as asserções e autoridade do Papa, Lutero os enfrentava com a Bíblia e com a Bíblia unicamente. Ali estavam argumentos que não podiam refutar; portanto os escravos do formalismo e superstição clamavam por seu sangue, como os fizeram os judeus pelo sangue de Cristo. "Ele é um herege ", bradavam os zelosos romanistas. "É alta traição à igreja permitir que tão horrível herege viva uma hora mais. Arme-se imediatamente para ele uma forca!" - D'Aubigné livro 3, cap. 9.
Lutero recebeu intimação para comparecer a Roma, a fim de responder pela acusação de heresia A ordem encheu de terror a seus amigos. Sabiam perfeitamente bem o perigo que o ameaçava naquela corrupta cidade, já embriagada com o sangue dos mártires de Jesus. Protestaram contra sua ida a Roma e requereram que fosse ele interrogado na Alemanha.
Assim se fez por fim e foi designado o núncio papal para ouvir o caso. Nas instruções comunicadas pelo pontífice a esse legado, referiu-se que Lutero fora já declarado herege. O núncio foi, portanto, encarregado de o "processar e o constranger sem demora ". Se ele permanecesse firme e o legado não conseguisse apoderar-se de sua pessoa, tinha poderes para "proscrevê-lo em todas as partes da Alemanha, banir, amaldiçoar e excomungar todos os que estivessem ligados a ele." D'Aubigné, livro 4, cap. 2. Além disso, determinou a seu legado, a fim de desarraigar inteiramente a pestífera heresia, que, exceto o imperador, excomungasse qualquer dignidade na Igreja ou Estado a todos os que negligenciassem prender Lutero e seus adeptos, entregando-os à vingança de Roma.
Aqui se patenteia o verdadeiro espírito do papado. Nenhum indício de princípios cristãos, ou mesmo de justiça comum, se pode notar no documento todo. Antes que seu caso fosse investigado, era sumariamente declarado herege, e no mesmo dia exortado, acusado, julgado e condenado; e tudo isto por aquele que se intitulava santo pai, a única autoridade suprema infalível na Igreja ou no Estado!
Augsburgo fora designada como o lugar para o processo e o reformador partiu a pé para fazer a viagem até lã. Alimentavam sérios temores a seu respeito. Fizeram-se abertamente ameaças de que ele seria agarrado e assassinado no caminho, e seus amigos rogaram-lhe que se não aventurasse. Solicitaram-lhe mesmo que, durante algum tempo, saísse de Wittemberg e procurasse segurança com os que, de bom grado, o protegeriam. Ele. porém, não queria deixar a posição em que Deus o colocara.
As notícias da chegada de Lutero a Augsburgo deram grande satisfação ao legado papal. O perturbador herege que despertava a atenção do mundo inteiro, parecia agora em poder de Roma e o legado decidiu que ele não escapasse. O reformador deixara de munir-se de salvo-conduto. Seus amigos insistiam em que, sem ele, não aparecesse perante o legado e eles próprios se empenharam em consegui-lo do imperador. O núncio tencionava obrigar a Lutero, sendo possível, a retratar-se, ou, não conseguindo isto, fazer com que fosse levado a Roma, para participar da sorte de Huss e Jerônimo. Por conseguinte, mediante seus agentes, esforçou-se por induzir Lutero a aparecer sem salvo-conduto, confiante em sua misericórdia. Isto o Reformador se recusou firmemente a fazê-lo. Antes que recebesse o documento hipotecando-lhe a proteção do imperador, não compareceu à presença do embaixador papal.
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