Quando o prelado viu que o raciocínio de Lutero era irrespondível, perdeu todo o domínio de si mesmo e, colérico, exclamou: "Retrate-se! Ou mandá-lo-ei a Roma, para ali comparecer perante aos juizes comissionados para tomarem conhecimento de sua causa. Excomungá-lo-ei e a todos os seus partidários, e a todos os que, em qualquer ocasião, o favorecerem e os lançarei fora da igreja." E finalmente declarou, em tom altivo e irado: "Retrate-se, ou não volte mais!" D'Aubigné, livro 4, cap. 8.
O Reformador de pronto se retirou com os amigos, declarando assim plenamente que nenhuma retratação se deveria esperar dele. Isto não era o que o cardeal se propusera. Ele se havia lisonjeado de poder pela violência, forçar Lutero a submeter-se. Agora, deixado só com os que o apoiavam, olhava para um e para outro, em completo desgosto pelo inesperado fracasso de seus planos. Os esforços de Lutero nesta ocasião não ficaram sem bons resultados. A grande assembléia presente tivera oportunidade de comparar os dois homens, e julgar por si o espírito manifestado por eles, bem como da força e verdade de suas posições. Quão assinalado era o contraste! O reformador, simples, humilde, firme, permanecia na força de Deus, senão a seu lado a verdade; o representante do Papa, importante a seus próprios olhos, despótico, altivo e desarrazoado, achava-se sem um único argumento das Escrituras, exclamando, no entanto, veementemente: "Retrate-se, ou será enviado a Roma para o castigo!" Se bem que Lutero se houvesse munido de salvo-conduto, os romanistas estavam conspirando para apanhá-lo e aprisioná-lo. Seus amigos insistiam em que, como lhe era inútil prolongar sua permanência, deveria, sem demora, voltar a Wittemberg e que a máxima cautela se deveria ter no sentido de ocultar suas intenções. De acordo com isto, ele deixou Augsburgo antes do raiar do dia, a cavalo, acompanhado apenas de um guia a ele fornecido pelo magistrado. Atingiu uma pequena porta no muro da cidade. Abriu-se-lhe e, com o guia, por ela passou sem impedimento. Antes que o legado soubesse da partida de Lutero, achava-se ele além do alcance de seus perseguidores.
Com as notícias da fuga de Lutero, o legado ficou opresso de surpresa e cólera. Esperara ele receber grande honra por seu tino e firmeza ao tratar com o perturbador da igreja, mas frustrara-se-lhe a esperança. Deu expressão à sua raiva em carta a Frederico, o eleitor da Saxônia, denunciando com amargura a Lutero e reclamando que Frederico enviasse o reformador a Roma ou que o banisse da Saxônia.
Em sua defesa, Lutero insistia que o legado do Papa lhe mostrasse seus erros pelas Escrituras e comprometia-se da maneira mais solene a renunciar as suas doutrinas se lhe provassem estarem elas em desacordo com a Palavra Divina. O apelo de Lutero às Esrituras foi consistente e firme. Quando mais tarde apelara ao imperador da Alemanha, Carlos V e 8 Dieta alemã para responder por sua fé, corajosamente declarou ele:
"Visto que Sereníssima Majestade e Vossas nobres Altezas exigem de mim resposta clara, simples e precisa, dar vo-la-ei e é esta: Não posso submeter minha fé, quer ao Papa, quer aos concílios, porque é claro como o dia, que eles têm freqüentemente errado e se contradito um ao outro. Portanto, a menos que eu seja convencido pelo testemunho das Escrituras ou pelo mais claro raciocínio; a menos que seja persuadido por meio das passagens que citei; a menos que assim submeta minha consciência pela palavra de Deus, não posso retratar-me e não me retratarei, pois é perigoso a um cristão falar contra a consciência. Aqui permaneço, não posso fazer outra coisa; Deus queira ajudar-me. Amém. " D'Aubigné, livro 7, cap. 8.
O eleitor possuía ainda pouco conhecimento das doutrinas reformadas, mas estava profundamente impressionado pela sinceridade, força e clareza das palavras de Lutero e, até que se provasse estar o Reformador em erro, resolveu Frederico permanecer como seu protetor. Em resposta ao pedido do legado, escreveu: "'Visto que o Dr. Martinho compareceu perante vós, em Augsburgo. deveríeis estar satisfeito. Não esperávamos que vos esforçásseis por fazê-lo retratar-se sem o haver convencido de seus erros. Nenhum dos homens doutos de nosso principado me informou de que a doutrina de Martinho seja ímpia, anticristã ou herética.' O príncipe recusou-se, além disso, a enviar Lutero a Roma, ou expulsá-lo de seus domínios."
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