RESPOSTA: Nós Adventistas não somos dicotomistas (que creem que o ser humano é separado em dois: corpo e alma) e nem tricotomistas (que acreditam que o ser humano é separado em três: corpo, alma e espírito). Somos holísticos. A Bíblia e a ciência estão em plena harmonia com esse conceito. Cremos que a natureza humana (físico, mental e espiritual) é um todo inseparável e, por isso, para que seja tenha uma vida espiritual saudável, deve haver um cuidado com o corpo e com a mente. Esse conceito é baseado em 1 Timóteo 5:23, 24 – onde Paulo afirma que os três aspectos do ser humano precisam ser trabalhados para que cada um se prepare para a volta de Cristo; e em muitos outros textos, como, por exemplo, o Salmo 6:5, onde é dito que, após a morte, o ser humano não possui consciência alguma. Só há consciência, portanto, quando os três elementos – espírito (espiritualidade, desejo de adorar algo), a alma (mente, nesse texto) e corpo – permanecem unidos. Quando se separam, a pessoa (ou alma vivente, segundo Gênesis 2:7) deixará de existir e voltará a uma existência depois da ressurreição dos mortos, como afirma 1 Tessalonicenses 4:13-18. Nesse momento Deus recriará e reunirá novamente os “três lados do triângulo”.
O dicotomismo (ou dualismo) é um conceito platônico que entrou na igreja cristã por influência de Agostinho. Por causa disso, grande parte das igrejas cristãs acredita numa existência após a morte, negando assim o holismo bíblico e diminuindo a importância da doutrina da ressurreição. Por causa de Platão o espiritismo também deixa de lado o ensino bíblico ao afirmar que “o mais importante é o espírito”. Isso que nega o ensino claro da Bíblia de que o corpo é sagrado para Deus (1 Coríntios 6:19, 20).
Sobre a entrada da doutrina da “imortalidade da alma” no cristianismo, disse o Prof. Presbiteriano Otoniel Mota:
“A doutrina da imperecibilidade da alma não é bíblica, mas pagã. Nasceu na Grécia e propagou-se na Igreja, através de Platão, do século V em diante, graças à influência de Agostinho. A doutrina de sua natureza simples, uma, indivisível etc., não se mantém diante das concepções psicológicas modernas e da teoria mais racional acerca da propagação do ser humana, corpo e alma.” Meu Credo Escatológico (opúsculo). 1938, p. 3.
Então, como podemos explicar Hebreus 4:12? Realmente, alguns cristãos usam o texto para afirmar que a natureza humana é dicotomista. O detalhe é que Hebreus 4:12 não é um estudo sobre a natureza humana, mas, se constitui na base do argumento do autor para mostrar o poder da Bíblia (que ele chama de Palavra de Deus) na vida de uma pessoa. Ele afirma que a Bíblia é tão eficaz e cortante “como uma espada” ao ponto de “penetrar” e “dividir alma e espírito”. Essa expressão está relacionada à outra que vem a seguir: “juntas e medulas”. Portanto, vê-se no contexto que ambas são usados em sentido figurado, pois, as juntas e as medulas são inseparáveis para que o ser humano viva bem. O Comentário Bíblico Adventista do Sétimo Dia informa muito bem sobre o objetivo do autor da carta aos Hebreus no uso de tais termos:
“A divisão entre ‘o alma e o espírito” e “as conjunturas e os tutanos” descreve até onde penetra a “palavra” de Deus. O valor desta figura de linguagem radica em que “vida” e “alento” [espírito] são, pelo menos para os propósitos práticos, inseparáveis.”
Quando entendemos que as palavras “alma” e “espírito” no original bíblico possuem várias traduções (princípio ativo que Deus nos dá para ficarmos vivos; vida, espiritualidade, pessoa viva, pensamentos, emoções, etc); e que nenhuma delas apresenta tais aspectos de nossa natureza como sendo “entidades imateriais”, podemos chegar à correta compreensão dos textos bíblicos que aparentemente dividem o ser humano em “dois” ou “três”. O estudo da Antropologia bíblica é fundamental para que conceitos gregos sobre o ser humano não influenciem nossas crenças e estilo de vida.
Recomendo a você a leitura de um dos melhores estudos já feitos sobre o assunto. O livro Imortalidade ou Ressurreição?, da autoria do Dr. Samuel Bacchiocchi, contém um estudo exaustivo dos textos bíblicos que tratam do assunto e opiniões de cerca de 300 eruditos não adventistas. Poderá adquiri-lo com a Imprensa Universitária Adventista pelo telefone (19) 3858-9055 ou pelo site http://www.unaspress.unasp.edu.br
Estarei à disposição sempre que precisar de ajuda.
2 Coríntios 5:8 e Filipenses 1:23: “Deixar o corpo para partir e estar com Cristo
Um querido amigo perguntou-me se havia contradição entre Eclesiastes 9:5-6 e 10, 2 Coríntios 5:8 e Filipenses 1:23. A pergunta dele me motivou a elaborar uma breve resposta sobre o assunto para que lhe auxilie, querido (a) leitor (a), em seu estudo das Escrituras.
Em uma primeira leitura – sem análise contextual – parece haver contradição entre os textos mencionados. Porém, estudando-os no contexto bíblico em que foi escrito; e levando em conta outros versos de Paulo que ensinam acerca do momento em que os justos receberão a recompensa, tudo ficará esclarecido.
O texto de Eclesiastes 9:5, 6,7 e 10 está em harmonia com os demais versos das Escrituras. Alguns exemplos:
“Se lhes corta o fio da vida, morrem e não atingem a sabedoria”. Jó 4:21.
“Eu, porém, na justiça contemplarei a tua face; quando acordar, eu me satisfarei com a tua semelhança”. Salmo 17:15.
“Lembra-te de que a minha vida é um sopro; os meus olhos não tornarão a ver o bem. Os olhos dos que agora me vêem não me verão mais; os teus olhos me procurarão, mas já não serei”. Jó 7:7-8.
“Pois, na morte, não há recordação de ti; no sepulcro, quem te dará louvor?” Salmo 6:5.
“Os mortos não louvam o SENHOR, nem os que descem à região do silêncio”. Salmo 115:17.
“Que proveito obterás no meu sangue, quando baixo à cova? Louvar-te-á, porventura, o pó? Declarará ele a tua verdade?” Salmo 30:9.
“A sepultura não te pode louvar, nem a morte glorificar-te; não esperam em tua fidelidade os que descem à cova. Os vivos, somente os vivos, esses te louvam como hoje eu o faço; o pai fará notória aos filhos a tua fidelidade”. Isaías 38:18-19.
“Cada um, porém, por sua própria ordem: Cristo, as primícias; depois, os que são de Cristo, na sua vinda”. 1 Coríntios 15:23.
“E serás bem-aventurado, pelo fato de não terem eles com que recompensar-te; a tua recompensa, porém, tu a receberás na ressurreição dos justos”. Lucas 14:14.
“De fato, a vontade de meu Pai é que todo homem que vir o Filho e nele crer tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia”. João 6:40.
“Sai-lhes o espírito, e eles tornam ao pó; nesse mesmo dia, perecem todos os seus desígnios”. Salmo 146:4.
“Mostrarás tu prodígios aos mortos ou os finados se levantarão para te louvar? Será referida a tua bondade na sepultura? A tua fidelidade, nos abismos? Acaso, nas trevas se manifestam as tuas maravilhas? E a tua justiça, na terra do esquecimento?” Salmo 88:10-12.
A Bíblia é clara em afirmar que, ao morrer, a pessoa dorme (Jeremias 51:57; Daniel 12:13). Jesus também se referiu ao estado do homem na morte com sendo um sono (João 11:11-14). Esse fato nos ensina sobre a importância de usarmos o conjunto das Escrituras (ler Isaías 28:10) para que possamos compreender qualquer doutrina.
Deixemos que Paulo fale por si…
Em ambos os textos, (2 Coríntios 5:8 e Filipenses 1:23) o apóstolo fala que gostaria de estar com Cristo não no momento da morte, mas quando fosse ressuscitado. Essa conclusão não é pessoal e sim baseada em 2 Timóteo 4:6 e 8, 1 Tessalonicenses 4:13-18 e 1 Coríntios 15:51-54:
“Já agora a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, reto juiz, me dará naquele Dia [volta de Jesus!]; e não somente a mim, mas também a todos quantos amam a sua vinda.”
“Não queremos, porém, irmãos, que sejais ignorantes com respeito aos que dormem, para não vos entristecerdes como os demais, que não têm esperança. Pois, se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também Deus, mediante Jesus, trará, em sua companhia, os que dormem. Ora, ainda vos declaramos, por palavra do Senhor, isto: nós, os vivos, os que ficarmos até à vinda do Senhor, de modo algum precederemos os que dormem. Porquanto o Senhor mesmo, dada a sua palavra de ordem, ouvida a voz do arcanjo, e ressoada a trombeta de Deus, descerá dos céus, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro; depois, nós, os vivos, os que ficarmos, seremos arrebatados juntamente com eles, entre nuvens, para o encontro do Senhor nos ares, e, assim, estaremos para sempre com o Senhor. Consolai-vos, pois, uns aos outros com estas palavras [com a doutrina da ressurreição e não com o ensino de que a alma ou espírito vai para um lugar melhor...].”
“Eis que vos digo um mistério: nem todos dormiremos, mas transformados seremos todos, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao ressoar da última trombeta. A trombeta soará, os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados [Evento único, não separado!]. Porque é necessário que este corpo corruptível se revista da incorruptibilidade, e que o corpo mortal se revista da imortalidade. E, quando este corpo corruptível se revestir de incorruptibilidade, e o que é mortal se revestir de imortalidade, então, se cumprirá a palavra que está escrita: Tragada foi a morte pela vitória.”
Esses versos tomados em conjunto nos permitem crer que:
1) Paulo tinha conhecimento de que receberia a coroa da justiça “futuramente”, por ocasião da volta de Jesus e não após a sua morte (2 Timóteo 4:8);
2) Paulo diz que os mortos em Cristo dormem (1 Tessalonicenses 4:13) e que, por ocasião da volta de Jesus os vivos transformados e os mortos em Cristo serão arrebatados JUNTOS [veja: os mortos não vão para um lugar intermediário primeiro!] para encontrar o Senhor nos ares e estar para sempre com Ele (conferir os versos 14-17). Se os mortos irão para o Céu COM OS JUSTOS VIVOS (não antes) quando o Senhor vier buscar Seus filhos, isto deixa claro que ninguém está no Céu ainda, “em espírito”.
3) O que vai para o Céu não é um “espírito imaterial” mas sim um corpo transformado e glorificado. (ver 1 Coríntios 15:51-54).
Como bem concluiu o Dr. Oscar Cullmann (Luterano e uma das maiores autoridades em Novo Testamento que já pisaram nesse planeta) em seu livro “Imortalidade da alma ou ressurreição dos mortos?”: a dicotomia (separação entre corpo e alma) do filósofo grego Platão (428/27 a.C – 347 a.C.) não se harmoniza com o ensino bíblico da ressurreição dos mortos.
Assim, a doutrina da “consciência” e uma possível “recompensa após a morte” não é bíblica.
Para mais detalhes, veja um agradável debate que tive com um Dr. Presbiteriano (educadíssimo) a respeito do assunto: http://www.youtube.com/results?search_query=rit+tv+leandro&search_type=&aq=f
O “inferno” em Ezequiel 32:21
Os mais poderosos dos valentes lhe falarão desde o meio do inferno, juntamente com os que a socorrem: Desceram e estão lá os incircuncisos, traspassados à espada.”
Esse texto é assim traduzido pela Almeida, Revista e Corrigida. Mas, é na Almeida, Revista e Atualizada que a tradução está correta, pois, o termo latim “inferno” não faz parte do original:
“Os mais poderosos dos valentes, juntamente com os que o socorrem, lhe gritarão do além: Desceram e lá jazem eles, os incircuncisos, traspassados à espada.” Ezequiel 32:21
Em vista do que vimos anteriormente (no post referente ao Salmo 9:17), especialmente em Eclesiastes 9:5-6 e 10, não podemos de forma alguma crer que no “além” (mundo dos mortos) há consciência. Sendo que o termo sheol é especialmente aplicado nas Escrituras num sentido figurado para descrever a morada dos mortos, a conclusão a que podemos chegar é que este “clamor” por parte dos ímpios ao Egito é simbólico. “A linguagem essencialmente figurativa e alegórica desta lamentação exclui a idéia de que o profeta nutrisse a crença de que os mortos não estivessem realmente mortos, mas que vivessem como sombra no sheol… E do mesmo modo que uma parábola, uma alegoria como esta não serve de fundamento para uma doutrina teológica” (APOLINÁRIO, Pedro. Explicação De Textos Difíceis da Bíblia. 4a edição corrigida, p.p. 134 e 135).
É comum na Bíblia os autores usarem o recurso da personificação para “dar vida” a seres ou objetos não conscientes, com o objetivo de gravar melhor na mente das pessoas o ensino espiritual que querem transmitir. Leia Juízes 9:7-21 e verá que árvores são personificadas.
Se dissermos como base em Ezequiel 32:21 que os mortos “falam”, então temos que fazer o mesmo em relação a Juízes 9 e chegarmos à conclusão horrorosa de que as árvores podem falar…
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