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quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Biologia e antropologia.

Introdução: Aristóteles pode ser considerado o criador da Biologia. Uma grande parte do Corpus aristotelicum está consagrada ao estudo dos seres vivos: o livro Sobre a alma; o conjunto de tratados conhecidos com a denominação de Parva naturalia: Sobre a sensação e o sentido, Sobre a adivinhação pelo sono, Sobre a memória e a reminiscência; Sobre o sono, sobre a duração e a brevidade da vida; sobre a vida e a morte, Sobre a respiração e os tratados tipos normais, Sobre a história dos animais, Sobre as partes dos animais, Sobre o movimento dos animais, Sobre o andar dos animais, Sobre a geração dos animais, Sobre o espírito, Sobre as plantas, História das plantas. 1 - Noção de vida: - Todas as substâncias pertencentes ao mundo físico terrestre têm por característica a mobilidade. Mas há entre elas uma grande diferença, que as divide em duas ordens muito distintas. Umas são inertes, e por seu movimento natural tendem aos seus lugares “naturais”, a não ser que intervenha o impulso mecânico comunicado por algum agente extrínseco. Outras, por outro lado, têm dentro de si mesmas um princípio intrínseco de seu movimento espontâneo, para seu próprio bem ou seu próprio fim. Daqui resulta uma dupla ordem de substâncias físicas: vivas e não vivas. “Dos corpos naturais uns têm vida e outros não, e por vida entendemos o fato de alimentarem-se, crescerem e perecerem por si mesmos”. ( De an. II 1,412 a 13-14; Phys. VIII 4, 255 a 5-7.) A distinção entre viventes e não viventes não provém de sua matéria, que é idêntica, pois tanto uns quanto outros são compostos dos quatro elementos, mas de sua forma, que é o princípio intrínseco do movimento vital. E este movimento não consiste somente no movimento local, que se dá nos seres vivos de ordem superior, mas essencialmente em sua capacidade de automodificação, ou seja, de reparar as perdas sofridas mediante a nutrição, de onde resultam os movimentos de crescimento e diminuição. O princípio da vida é a alma ( ), que Aristóteles define não somente como ato da matéria em ordem ao conjunto dos elementos corpóreos, mas em ordem ao conjunto de órgãos: “ato primeiro do corpo físico orgânico, que tem vida em potência.” ( De an. II 1,412 b 4 ). Quanto à natureza da vida, Aristóteles considera-a essencialmente como calor, mas não o que provém do elemento fogo, mas outro de categoria superior, que procede do Sol ou dos astros ( Homo et sol generant hominem.) 2 - Graus dos seres vivos:- Aristóteles distingue vários graus de perfeição na escala dos seres vivos. São distintos, mas cada grau superior inclui virtualmente os inferiores, semelhante às figuras geométricas: por exemplo : o quadrilátero inclui o triângulo, porque pode dividir-se em dois triângulos iguais. Mas o triângulo pode existir sem o quadrilátero ( De an. II 3,414 b 28 - 32 ). 1) Plantas, que têm alma vegetativa ou nutritiva, a qual exerce as funções de assimilação e reprodução. Mas não têm sensibilidade e movimento local. (De an. II 5, 411b 27-28; 415 a 2-3.) 2) Animais imperfeitos, que têm alma sensitiva, mas não têm o movimento progressivo. (De an. II 3, 414 a 32-b1.) 3) Animais perfeitos, que têm alma sensitiva, e além disso , apetite, fantasia, memória e faculdade locomotiva para transladar-se de um lugar a outro. (De part. animal. I1, 641 a 17-b10.) 4) O homem marca o grau supremo na hierarquia dos seres vivos terrestres e sintetiza em si todas as perfeições dos seres anteriores; princípios, elementos, mistos, plantas e animais. Ele distingue-se e os supera a todos por sua alma, que é uma forma dotada de entendimento e vontade, capaz de ciência e deliberação. (De an. II 3, 414). Ross (Aristóteles, p. 124) resume deste modo a hierarquia dos seres vivos: Animais sangüíneos 1. Homem 1.Vivíparos.....................................2. Quadrúpedes com pêlos (mamíferos terrestres). 3. Cetáceos (mamíferos marinhos). 4. Aves (pássaros). a)com ovo perfeito 5.Quadrúpedes com escama e ápodes(répteis e anfíbios) 2. Ovíparos.. b)com ovo imperfeito 6. Peixes Animais não sangüíneos 7. Malacodermes (cefalópodes). 8. Malacrustáceos (crustáceos). 3. Vermíparos.................................9. Insetos. 4. Produzidos por um fluido viscoso, em rebento ou geração espontânea.....................................10. Os tracodermes(moluscos diferentes dos cefalópodes). 5. Produzidos por geração espontânea.....................................11. Zoófitas. 3. Relações entre a alma e os corpo:- F. Nuyens distinguiu três etapas na evolução do pensamento aristotélico tomando por base o seu conceito das relações mútuas entre a alma e o corpo: a) Na primeira (platônica) Aristóteles considera a alma e o corpo como duas substâncias distintas e até opostas, unidas não só acidental e violentamente como constituindo uma unidade apenas temporal. A alma pré-existe ao corpo e retorna, depois da morte, a seu estado primitivo (Eudemo). c) Na segunda (transição), a alma ainda que distinta do corpo , está unida a ele acidentalmente, mas o corpo concebe-se como um instrumento da alma. O corpo é por e para a alma. A alma age no corpo e pelo corpo, ao qual governa como a uma cidade bem governada. Não há ainda união substancial, mas a união já não aparece como violenta, mas como comunhão de atividades, se bem que a alma conserva ainda uma certa independência. (De part. animal I 5, 645 b 14; De motu animal. 703 a 30; Eth. Eud. VII 9, 1241b17.) e) Na última etapa chega Aristóteles à união substancial mediante a aplicação da teoria hilemórfica. A alma é o ato do corpo, com o qual se une como a forma com a matéria, de sorte que a alma e corpo, ainda que distintos, constituem, não obstante, um só e único composto substancial, do qual brotam todas as operações próprias do ser vivo. A heterogeneidade das partes de que constam os seres vivos não impede a sua estrita união substancial, que provém da união de sua forma ou princípio vital único. E as operações não podem ser atribuídas separadamente nem ao corpo, nem à alma, mas ao sujeito substancial que resulta da união de ambos, e que tem um ato único de existência. “Assim como o olho compreende a pupila e a vista, assim a alma e o corpo formam juntamente o ser vivo.”(De an. II 1, 412b 6-8; 413 a 2-3; Met. VII 6, 1045b5-23.) “Não é o corpo o ato da alma, mas a alma o ato de um certo corpo... não pode ser nem um corpo, nem num corpo; porque ela não é um corpo, mas alguma coisa do corpo, e por causa disto ela está num corpo.” (De an. II 2, 414 a 22.) Definições aristotélicas do conceito hilemórfico: “A alma é a forma de um corpo natural que tem a vida em potência.” ( De an. II 1, 412 a 30.) “É o ato primeiro de um corpo natural que tem a vida em potência.” (De an. II 1, 412b1. ) “É o ato de um corpo natural orgânico” (De an. II 1, 412b10.) “É aquilo pelo qual vivemos, sentimos e pensamos.” (De an. II 2, 414 a 12.) Com a aplicação da teoria hilemórfica à biologia, a união da alma com o corpo aparece como uma coisa natural e ficam excluídas as teorias platônicas da preexistência e transmigração. O corpo não é a tumba nem o cárcere da alma, mas sim ambos são dois princípios distintos de cuja união resulta um só ser substancial e natural. Fica também excluído o conceito materialista dos antigos fisiólogos, bem como a teoria de alguns pitagóricos que concebiam a alma como a harmonia resultante dos elementos do corpo. (De an. I 4, 11ss.) E fica também suprimida a divisão da alma em três partes diferentes. A alma de cada ser vivo é uma forma única, ainda que contém em si virtualmente todas as almas dos viventes inferiores.

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